Suplício de uma Saudade Artigo 158
Suplício de uma Saudade

Portal Alice Ramos http://www.aliceramos.com/view.asp?materia=1543

Luiz Sergio Lindenberg Nacinovic

Se alguém ainda lembra do filme, nós – usuários de telecomunicações como o serviço está sendo oferecido ao brasileiro, estamos perplexos com o comportamento das operadoras de telefonia, da mesma forma que a dra. Han Suyin estava pasma com as atitudes dos comunistas chineses.

 

O filme, que ganhou várias Oscar’s, foi uma das grandes peças de propaganda da guerra fria e tentava passar aos espectadores como era boa a vida na China antes da chegada da ditadura de partido único. Fazendo um paralelo, todas as campanhas publicitárias das operadoras de telefonia aqui, tentam passar a impressão de que, passados os dez anos da privatização, o serviço vai muito bem obrigado, e bem melhor do que quando era regido pelo sistema Telebrás.

 

Só que do jeito que o cenário está configurado, a saudade do antigo sistema não é nenhum suplício, pois se antes não havia oferta para atender a demanda, ao menos não tínhamos que conviver com a multiplicidade de siglas, códigos, promoções enganosas, e produtos oferecidos e vendidos  e nunca atendidos pelas operadoras.

 

Tínhamos consciência de que o serviço que nos era oferecido  nós  governo era precário, e não atendia a demanda.  Hoje, temos certeza de que as operadoras de telefonia se comportam em nosso País como um exército vitorioso, pilhando tudo ao seu alcance e dividindo o butim entre seus executivos, tentando enganar a todos.

 

Se o problema antes era a persistência na falta de recursos para atender a demanda, hoje, falta interesse ao governo para fiscalizar as operadoras de telefonia, quer seja pelo Ministério das Comunicações, cujo Ministro está mais preocupado em ser Governador de seu Estado Natal ou pela ANATEL, a Agência Reguladora, que na verdade nada mais é do que o Sindicato das operadoras, presidida (pasmem!) por um diplomata.

 

O exemplo para o caos que acontece no setor continua a ser o affair Telefônica, considerada hoje o cachorro morto da história, pois todos já a chutaram, e ela não moveu uma linha de seu comportamento predatório, demonstrando aos chutadores que, além de fazer seus usuários de palhaços, ela resolveu fazer graça junto àqueles que contribuíram para o seu caixa, (leia-se BNDES) com 2,342 bilhões de reais.

 

Em 2008, a Telefônica disse ao mercado que investiu nela própria o dinheiro levantado junto ao BNDES. Era de se esperar uma melhoria radical nos serviços oferecidos e uma grande movimentação no mercado de serviços e fornecimentos do setor. Hoje, existe a suspeita de que toda essa dinheirama foi desviada para qualquer finalidade dentro da casa, menos para a tão  alardeada, isso é: reforço na infra-estrutura.

Se o investimento aconteceu realmente, porque será então que em 2009 o Speedy ficou daquele jeito, com três apagões consecutivos e o STFC mantido pela companhia, foi a nocaute três dias seguidos, deixando seus usuários surdo-mudos até para serviços de emergência?

O que será que aconteceu com todo esse dinheiro, pertencentes a nós, consumidor?

Conforme a visão do Consultor Virgílio Freire, um dos que analisou o balanço, o dinheiro simplesmente sumiu, pois todos os investimentos e despesas apresentadas nele são improváveis e impossíveis de serem provadas.

 

A Associação de Engenheiros de Telecomunicações (AET,) escreveu carta circular a todos os fornecedores de serviços e equipamentos no ramo, perguntando quais os equipamentos que a Telefônica havia comprado com o investimento anunciado. Recebeu como resposta uma negativa de todos, que assinalaram não ter assinado nenhum contrato de fornecimento com a operadora.

 

Não contente com isso, a AET enviou correspondência a fabricantes de equipamentos japoneses, norte-americanos, suecos, finlandeses, e alemães com a mesma pergunta. Recebeu deles a mesma negativa dada pelos fabricantes locais. Ninguém, a não ser uma companhia chinesa de pequena expressão, tinha sido contratada para nada. Essa companhia chinesa forneceu modems, que chegam ao consumidor pelo preço de R$. 50,00.

 

Conforme o balanço apresentado pela operadora, foram gastos 471 milhões de reais com a compra desses pequenos gadgets, e de telefones fixos, fornecidos quando se contrata o serviço de banda larga, cuja venda é casada com a do STFC.

 

Se pegarmos a quantia alegadamente gasta com os aparelhinhos, e dividirmos pelo preço, veremos que a Telefônica comprou e instalou, no período, 9 milhões e 420 mil modems e aparelhos telefônicos por todo aquele Estado da Federação.

São Paulo tem 13 milhões de assinantes. Assim, conclui-se que a Telefônica substituiu mais de 50% de todos os aparelhos existentes em seu universo.  Isso realmente aconteceu?

 

Outra coisa fantástica apontada no Balanço da Telefônica foi um gasto de 459 milhões e 200 mil reais, com serviços de informática e que não foram incluídos no item de despesas com pagamentos de serviços, cujo valor total foi de 1,25 bilhão.

Vale aqui um alerta: Despesas com serviços não podem ser consideradas investimentos, devido serem considerados bens intangíveis (abstratos. Só os bens tangíveis, concretos como prédios, equipamentos é que são considerados investimentos. Os Intangíveis são meras despesas).

 

Analisando a prestação de contas sobre os serviços de informática que lhe foram prestados, a Telefônica jogou dinheiro fora com eles. A prova disso está na TELSTRA - companhia de telecomunicações da Austrália- que assinou com a EDS um contrato anual de 150 milhões de dólares.

De todos os grandes contratos pesquisados pela coluna, este é o de maior valor e assinado, no mesmo período em que a Telefônica garante ter gastado quase meio bilhão de reais com a mesma coisa.

Vale perguntar: Quem está sendo enganado? Nós, ou um canguru qualquer?

 

Todos os fornecedores da Telefônica assinalaram a este colunista que a chamada Mesa de Compras da operadora é duríssima nas negociações, querendo descontos até na proposta de menor preço. Se a TELSTRA pagou 150 milhões de dólares por um ano de contrato, como é que os Espanhóis autorizaram esse gasto, completamente improvável (impossível de provar)?

 

Como resposta, a diretoria da Telefônica encarregada do  relacionamento com o mercado, assinalou que, “o balanço da operadora não está irregular e que irá a Justiça contra os denunciantes caso seja necessário”. E, por incrível que pareça, o BNDES veio em socorro da operadora, alegando que : “os dados e destinações do empréstimo tomado em 2007 de nossas contribuições, são sigilosos”!

 

 

Sabem quem disse esse impropério?  Luciano Coutinho, presidente da Instituição,  por intermédio de sua assessoria.

Para piorar ainda mais as coisas, o engenheiro Ruy Bottesi, presidente da AET, além de alertar a CVM sobre a inexatidão do balanço da Telefônica,   enviou correspondência  à presidente da SEC -  (Securities and Exchange Comission norte-americana), Mary Schapiro, contestando a informação do balanço de que a companhia investiu R$. 2,342 bilhões na rede no ano passado, afirmando existirem "fortes indícios de fraude" nos dados.

 

Essa correspondência do Presidente da AET para a Presidente da Comissão Federal norte-americana é explicável, pois a Telefônica tem ações negociadas na Bolsa de NY, daí a ameaça de “providências judiciais cabíveis”, pois a carta-denúncia enviada por Ruy Bottesi e já avalizada por consultores de respeito como Virgílio Freire, vai causar grandes embaraços a toda uma relação entre a Telefônica e o mercado, bem como em todas as bolsas onde as ações da operadora são negociadas.

 

Contrariando todas as expectativas do mercado, a CVM respondeu a interpelação da AET num documento que expõe uma defesa não muito brilhante, da Direção de Relações com os Investidores da Telefônica, que apresenta partes do balanço publicado no Diário Oficial, argumentando que a administração deve manter reserva sobre a gestão dos negócios da companhia, ignorando completamente a transparência, vê sem nenhuma abertura para uma verificação analítica dos negócios praticados pela empresa.

 

Analistas suspeitam que, ao aumentar o grau de terceirização em áreas internas da empresa e unidades de negócios, (rede, call centers, etc.), a operadora pode ter mudado num passado recente à classificação dos gastos. Assim, despesas que antes eram de custeio passaram a ser consideradas como investimento, totalizando um investimento fantasma de 26 bilhões de reais em dez anos de operação.

 

Depois de apresentar ao mercado esse balanço esquisito, que mais parece uma fábula do humor de Millor Fernandes, e contando com o aval da ANATEL, a Telefônica está disposta a gastar uma grana preta para acabar com a competição no Brasil. Esse final infeliz tem até data marcada, que é o próximo dia 19.

 

Nesse dia acontece a Oferta Pública de ações da GVT, fato que não depende da posição dos controladores da operadora- espelho, pois 56% das ações da GVT, está pulverizado no mercado.

A operação, em seu todo, funcionará como um leilão, com os acionistas oferecendo seus lotes, e a Telefônica os comprando pelo preço anunciado, que é de cinqüenta reais e cinqüenta centavos, por ação.

 

Analistas acreditam que a nova oferta da Telefônica teve o objetivo de retirar da disputa a Vivendi e qualquer outro candidato. Para eles, comprar a GVT seria a forma mais econômica de a Telefônica ganhar mercado fora de São Paulo, competindo diretamente com a Oi. A outra saída seria a construção de uma infra-estrutura na área de concessão da Oi, onde a GVT surgiu como operadora "espelho", em 2000. E esses mesmos analistas acreditam que a Telefônica entrará somente com 4,61 bilhões de reais dos 6,95 prometidos para a OPA. O restante é o empréstimo feito pelo BNDES em 2007 e que tem um balanço maquiado em 2008 para justificar sua aplicação.

 

Enquanto em 2008 o mundo encolheu economicamente, a Telefônica cresceu. Pelo menos, é isso que diz o balanço. E agora, em 2009, a Telefônica parte para uma absorção que deverá estar concretizada em 2010, se tornando a outra corporação do oligopólio formado após a privatização das Teles.

 

E, nesses dez anos, o governante que ficou conhecido como o grande articulador de toda essa mamata, não quer mais ser lembrado por esse dano a nossa história, pois essa saudade lhe causa uma mudez absoluta, fato que deve ser um suplício para a sua falastranice.

 

FHC agora quer ser lembrado por ter sido o homem que lutou pela paz social interna a partir da descriminalização da maconha. Para quem não sabe, essa é a missão do Instituto Fernando Henrique Cardoso hoje em dia.

Porque falar aqui em política? Vocês verão logo abaixo a razão desse porque.

 

Temos que ter na mente que o próximo ano é ano de eleição m-a-j-o-r-i-t-á-r-i-a. É, vamos eleger Presidente, Congresso, Governadores e Assembléias Legislativas. Para isso aturaremos programa eleitoral gratuito, boneco de político publicado que nem fichário policial teremos que começar a procurar itinerário para evitar as chamadas “caminhadas junto ao eleitor” e outras medidas de segurança para evitar contágio. Praga, a gente tem que tratar assim, não é mesmo?

 

Na verdade, toda essa cambada chamada de praga no período anterior, não merece classificação mais agradável. Desde 1955 que nossos representantes vêm legislando em favor das empreiteiras, banqueiros e toda uma elite que sempre reservou para si a lata de goiabada, deixando o esgoto para todos nós, contribuintes, e usuários. 

Em 2002, a maioria pensou que, ao eleger um presidente vindo do povo, a coisa iria melhorar. Melhorou um pouco, pois, ao menos, saímos da bancarrota econômica e nosso poder aquisitivo aumentou não tanto como a gente queria.

Sei de muita gente que vai lembrar feliz dessa época que vivia bem e reclamava, sentindo o suplício que essa saudade causa...

 

Já o ano que vem, é decisivo. Dependendo do resultado geral da eleição e da configuração do novo mapa político, poderemos nós todos começar uma vida de recordações. Afinal, recordar é viver, não diz o ditado?

 

Assim, nós, consumidores e usuários de serviços de telecom sentiremos o suplício da saudade, de recordar que tivemos uma série de Ministros das Comunicações mais esclarecidos e menos lobistas que o senhor Hélio Calixto Costa, que não cumpriu nenhuma das metas as quais se propôs, tanto nas Telecomunicações como na chamada  radiodifusão de sons e imagens, da qual ele é um empresário bem sucedido.

 

O Carnaval no inferno que aconteceu em todos os setores do Ministério das Comunicações nesse 2009 ainda presente, deve terminar com a manobra que está sendo urdida em Brasília, com o aval de vários interessados, para fazer o montante acumulado do FUST retornar, sob varias vias, ao caixa das operadoras de telefonia, já a partir de 2010.

 

Prosseguindo a fúria clientelista governamental, 2010 verá o ressurgimento da Telebrás como empresa, fato que vai determinar um gasto brutal com toda a reestruturação de um dinossauro que estava morto e os neoliberais julgavam ter enterrado.

Quanto ao rádio digital, se, de 2005 a 2009, ninguém se entendeu quanto ao sistema a ser utilizado, tudo indica que o sistema será imposto por decreto, pois a consulta pública de cartas marcadas se encerra no próximo dia 22.

Como já aconteceu com o sistema PAL-M, iremos contra a maré do mercado impondo a todos um sistema que a maioria dos Países que o adotaram está tentando abandonar. O mesmo deverá acontecer com a TV digital, já que mercado e fabricantes estão fazendo corpo mole para a mudança e mentindo descaradamente à sociedade, a respeito de seu custo x benefício.

 

Já as agências, ditas reguladoras, o zero a esquerda que elas são desde que foram criadas, continuarão a ser zero em 2010. Temos a única agência reguladora de telefonia no mundo que é presidida por um diplomata e suas reuniões de Conselho, que, segundo observadores, mais parece um saco cheio de gatos brigões, continuará pior, com todos defendendo interesses bem diferentes daquilo que o consumidor pretende.

 

Se isso servir como consolo, o caos não acontece só naquilo que nos interessa diretamente. Vocês ainda não viram como está o setor de energia e o setor do petróleo, lá é que os cães estão chupando manga. Os apagões já começaram. Quarta-feira dia 4, dois terços de Belo Horizonte ficaram sem energia por mais de 40 minutos, logo no início da tarde.

Até agora, ninguém se explicou quanto a fato. Disseram apenas que foi uma sobrecarga numa estação transmissora situada em Ribeirão das Neves, a 20km do centro da capital.

 

Concluindo, não custa repetir aqui o que falamos no começo, 2010 promete a todos nebulosidade total no que diz respeito a previsões.

 

O futuro a Deus pertence, e a única previsão mais ou menos certa de acontecer é que chegaremos a 31 de dezembro de 2010, sentindo o suplício da saudade que teremos do 31 de dezembro de 2009.

 

 

E-mail do Colunista: luizsergio1@terra.com.br


Luiz Sergio Lindenberg Nacinovic é Analista de Sistemas e Radialista. Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Computação (SBPC) sócio 14990, e da Associação Brasileira de Webmasters. Começou a trabalhar com mídia, no Rio de Janeiro, na primeira edição Brasileira da Revista Rolling Cone, em 1971. Integrou a fundação da Rede Antena 1 de Rádio (1979), montando as emissoras do Rio e de BH (1984). Fundou a Extra Fm 103,9 - integrante da Rede Itatiaia (1987) e foi membro da equipe original do Jornal "O Tempo” (1996). Atualmente é sócio-gerente da Versão Beta Editora Digital Ltda; em Belo Horizonte.